sexta-feira, 20 de março de 2026

A psicologia tomista nas mãos erradas

 Escrito e publicado por Rhuan M. E. Honório, psicólogo clínico / rhuanhonorio.com.br 

A psicologia tomista nas mãos erradas (ou "o descrédito da psicologia tomista no Brasil")

“Já que tudo o que se constrói hoje passa automaticamente para as mãos do inimigo, esperemos, antes de construirmos qualquer coisa, que o tempo nos traga materiais que não nos traiam.” (atribuído a Nicolás Gómez Dávila)


Nesta semana, recebemos de um amigo uma imagem de divulgação muito extravagante publicada por um sujeito que oferecia um serviço de "psicoterapia cristã-tomista". Apesar de cômica, a publicação não deixava de ser preocupante, especialmente porque não é a primeira vez que alguém aparece na internet oferecendo uma "psicoterapia tomista" com um ar de grande falta de credibilidade. Na verdade, a chamada psicologia tomista é frequentemente usurpada e, no Brasil, talvez seja mais usurpada que bem utilizada. Tudo isso merece um esclarecimento:

Como explicávamos em outra publicação, nenhuma psicologia terapêutica pode abster-se de bases filosóficas e antropológicas (ou de uma "visão de homem", como dizem). Os mais proeminentes autores da psicologia moderna o negam cinicamente, numa tentativa ilustrada de ocultar, às vezes até para si mesmos, as suas verdadeiras intenções e aspirações: a psicologia de Freud, como dizíamos, não se separa de seu nietzschianismo ou de seu feuerbachianismo; as terapias cognitivo-comportamentais, ou a norma de ação frequentemente associada a elas, a das "Práticas Baseadas em Evidências (PBE)", não pode se separar de sua filosofia positivista nem deixar de padecer das inconsistências dessa filosofia; Viktor Frankl (este, sim, honesto e claro com respeito ao assunto de que falamos) não se separa de Kant, de Max Scheler etc.

A nova 'psicologia tomista' (que definimos na mesma publicação linkada acima) é uma resposta à necessidade de fundamentar a psicologia terapêutica em verdadeiras bases filosóficas. Esta psicologia não se abstém de incorporar qualquer elemento verdadeiro que se possa encontrar na ciência moderna ou na parte prática de outras "abordagens", e tal abstenção seria contrária ao próprio espírito do tomismo. Encontram-se muitos elementos verdadeiros, por exemplo, nas terapias cognitivo-comportamentais, embora, no geral, não se possa estar de acordo com essas correntes reducionistas, muito menos com os falsos princípios da "PBE". Mas qualquer psicólogo que não se convença com as mentiras de Kant sobre o homem e a ética, ou com as mentiras de Comte sobre a ciência, ou que não queira reduzir o homem a um corpo sem alma, pode recorrer a Santo Tomás de Aquino, e ninguém poderia negá-lo sem recorrer a princípios... filosóficos (falsos, ainda por cima)! Esclareça-se, ademais, que a psicologia tomista não é nomeada "psicologia cristã", embora seja compatível com o cristianismo. Os princípios da filosofia, da psicologia e de outros tratados de que a psicologia terapêutica se utiliza não são dados da Revelação. Nomear a psicologia tomista por "psicologia cristã" só serviria para gerar incompreensões e para jogá-la ao escárnio daqueles que zombam da fé cristã.

Pois bem: já que tudo o que se constrói hoje passa automaticamente para as mãos do inimigo, não poderia ser diferente com a psicologia tomista, que tem sido injustamente posta em descrédito, ao menos no Brasil. Não sabemos a que ponto chega tal descrédito, mas não é difícil deparar-se com alguém que desconfia grandemente desta psicologia (às vezes compreensivelmente, considerando o que se trata aqui). A razão disso, ao contrário do que se pode imaginar, não é, pelo menos não em primeiro lugar, a hostilidade dos acadêmicos e dos adeptos das psicologias modernas (embora eles frequentemente não tenham boa vontade com a psicologia tomista), mas o fato de que, no nosso contexto, a ideia de uma psicoterapia baseada nos princípios de Santo Tomás se transmite às margens da atuação profissional regular e, além disso, como um substituta da educação formal, não como um complemento ou "corretivo" desta. De modo claro: se transmite não somente a psicólogos, estudantes de psicologia e médicos, mas a coaches, vendedores de curso, terapeutas que não são nem querem se formar psicólogos, etc., sendo esses últimos frequentemente incluídos como público das campanhas de marketing. O espantalho da psicologia tomista criado por essas figuras muitas vezes corresponde, lamentavelmente, às críticas dos acadêmicos e adeptos das correntes de psicologia moderna. 

Certamente, isso não é culpa da psicologia tomista nem de seus sistematizadores atuais, que, em geral, são acadêmicos, e acadêmicos de grande importância, como o Dr. Martín Echavarría, de notável carreira. O problema está no nosso clima "marketeiro" e antiacadêmico, preparado para fins não intelectuais, mas comerciais. Apresenta-se um curso como um substituto da faculdade (e isso não acontece somente com a psicologia, mas também com algumas outras áreas), incentiva-se ativamente a prática da psicoterapia por não psicólogos, ganha-se clientes e, por fim, forma-se "terapeutas" com lacunas de formação que às vezes nem mesmo alguns psicólogos formados nas nossas péssimas faculdades têm, sem falar das lacunas de formação com respeito ao próprio tomismo, resultantes de um estudo que salta direto à psicologia e à ética e ignora uma ordem das disciplinas. Esses "terapeutas" frequentemente não compreendem a importância da autoridade intelectual ou são avessos a ela. Também não é difícil que outros sejam levados pela ideia de uma formação completamente autodidata.

E o que será da psicologia tomista? Sabemos que a verdadeira psicologia tomista é a melhor forma de psicologia terapêutica. Para que haja alguma chance de que ela se torne respeitada ou prestigiada, superando a má vontade dos progressistas, cientificistas, etc., é necessário que os psicólogos ou professores que ensinam a psicologia tomista não incentivem ativamente que seus alunos sejam "terapeutas" sem serem psicólogos e que, pelo contrário, incentivem que se formem como psicólogos; que os alunos estudem seriamente o tomismo¹ e as partes úteis da psicologia moderna² e que, ao menos os que puderem e encontrarem universidades que não os impeçam (são poucas, reconhecemos), tentem produzir academicamente; e que os adeptos da psicologia moderna conheçam a psicologia tomista por suas verdadeiras fontes, como o próprio Martín Echavarría.


PS.: Antes que sejamos mal-entendidos, não ignoramos a triste realidade dos cursos universitários de Psicologia. O que não podemos é deixar de apontar as falsas soluções, que mais criam novos problemas do que solucionam os que já existem.


¹Recomendamos os cursos da plataforma https://cursos.estudostomistas.org/

²O psicodiagnóstico, as partes úteis das terapias cognitivo-comportamentais, etc.


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